“Tem que beber 2 litros de água todo dia.”
“Se sentiu sede, já está desidratado.”
“Café desidrata.”
“Quanto mais água, melhor.”
Essas frases estão em academia, consultório, rede social… mas isso tudo é verdade?
Quando falamos de exercício físico e esporte, recomendações simplistas sobre hidratação podem tanto subestimar quanto exagerar o problema, atrapalhando desempenho e, em casos extremos, até colocando a saúde em risco.
Neste texto, vamos organizar o que realmente importa sobre hidratação no contexto do exercício:
- Por que “8 copos de água por dia” é um número frágil
- Quando beber só pela sede funciona, e quando não
- A relação entre hidratação, desidratação e hiponatremia em provas longas
- O papel real de café, bebidas esportivas e eletrólitos

“Beber 2 litros de água por dia”: verdade ou modismo?
A famosa recomendação de “8 copos” ou “2 litros de água por dia” é uma simplificação grosseira.
Na prática:
- A necessidade hídrica varia muito entre pessoas (peso, idade, nível de atividade, clima, dieta).
- A hidratação diária vem de várias fontes, não só de copos de água:
- água pura
- café, chá, leite, sucos
- alimentos ricos em água (frutas, verduras, sopas, iogurtes)
Ou seja: dizer que só conta o que vem de “copo de água” é incorreto.
O mais adequado é pensar em ingestão total de líquidos ao longo do dia, ajustada ao contexto. A recomendação fixa de “2 litros” pode ser pouco para alguns e excessiva para outros.
“Se sentiu sede, já está desidratado”?
Essa frase é parcialmente verdadeira, mas vira mito quando usada como terrorismo.
- A sede aparece quando o corpo detecta alterações na osmolaridade (perda de água, aumento de solutos).
- Isso não significa necessariamente um estado crítico de desidratação; é, na verdade, um mecanismo eficiente de autorregulação em pessoas saudáveis.
No dia a dia, para a maioria das pessoas:
- Usar a sede como guia é uma estratégia razoável de hidratação.
Mas no contexto esportivo, especialmente em:
- provas longas,
- ambientes muito quentes e úmidos,
- atletas com sudorese muito alta,
confiar apenas na sede pode não ser suficiente. Nessas situações, a taxa de suor é tão grande que:
- o atleta pode perder mais água e sódio do que consegue repor baseado só no “aperto” da sede,
- e a desidratação passa a impactar performance de forma mais clara.

Café desidrata?
Esse é outro clássico.
Sim, a cafeína tem leve efeito diurético, principalmente em pessoas não habituadas.
Mas em quem já consome café regularmente, esse efeito é muito menor do que se imagina.
Na prática:
- Uma xícara de café contribui positivamente para o balanço hídrico diário.
- Café e chá contam como ingestão de líquidos, desde que consumidos com moderação e dentro do contexto de saúde do indivíduo.
Isso não significa que o atleta deva se hidratar só com café, nem que quantidades muito altas de cafeína sejam seguras.
Mas a ideia de que “café desidrata automaticamente” é exagerada e não se sustenta bem na literatura em pessoas saudáveis, habituadas ao consumo.

Cor da urina: dá pra confiar?
A tabela de “cor da urina” é um recurso prático:
- Urina muito escura, com cheiro forte → em geral indica ingestão baixa de líquidos.
- Urina mais clara tende a indicar hidratação melhor.
Mas não é uma ferramenta perfeita:
- Suplementos (como algumas vitaminas), alimentos e medicamentos podem alterar a cor sem relação direta com desidratação grave.
- Em atletas, ajustes de treino, alimentação e uso de ergogênicos também podem influenciar.
Conclusão: a cor da urina é um bom sinal de triagem, mas não substitui contexto, bom senso e, quando necessário, avaliação mais completa.

Hidratação no exercício: o que muda quando você começa a suar muito?
Em repouso, o organismo tem uma boa margem para regular água corporal.
Já durante o exercício, especialmente em calor e umidade elevados, essa margem diminui:
- A produção de calor sobe.
- O corpo aumenta a sudorese para resfriar.
- Você passa a perder água e eletrólitos em ritmo acelerado.
A taxa de suor pode variar enormemente:
- Alguns atletas: ~0,5 L/h em treinos moderados.
- Outros: 1,5–2 L/h (ou mais) em treinos intensos, no calor.
Por isso:
- Estratégia de hidratação não pode ser “copia e cola”.
- O que funciona para um atleta pode não funcionar para outro, mesmo no mesmo esporte.
Um recurso simples para estimar sua taxa de suor é:
- Pesar-se antes do treino (sem roupa molhada).
- Pesar-se depois do treino (sem roupa molhada).
- Considerar o quanto bebeu de líquido e se urinou no período.
A partir dessa diferença, você consegue uma estimativa da perda hídrica por hora naquela condição.
Desidratação x hiponatremia: os dois extremos perigosos
Falar só de desidratação é ver metade da história.
- Desidratação importante em provas longas pode:
- aumentar a frequência cardíaca,
- reduzir o volume sistólico,
- prejudicar controle da temperatura,
- aumentar a sensação de esforço,
- piorar o desempenho.
Mas, por outro lado:
- Hiper-hidratação com água pura, em grande quantidade e por longos períodos, pode diluir demais o sódio no sangue, levando à hiponatremia.
Na hiponatremia:
- A concentração de sódio sanguíneo cai perigosamente,
- Em casos graves, pode causar:
- cefaleia intensa,
- confusão mental,
- convulsões,
- coma,
- e até morte.
Isso já foi descrito em provas como maratonas, triathlons e eventos de endurance, em praticantes que seguiram recomendações do tipo “beba o máximo de água possível o tempo todo”.
Por isso, o recado é claro:
Hidratação adequada não é “quanto mais água melhor”, e sim equilíbrio entre líquidos e eletrólitos, ajustado ao contexto.
O papel das bebidas esportivas e do sódio
No suor, você perde principalmente água e sódio.
Logo:
- Em treinos/provas mais curtos (até ~1 hora, clima ameno):
- Para muitos, água + boa hidratação ao longo do dia já é suficiente.
- Em treinos/provas mais longos ou em calor intenso:
- Entra o papel das bebidas esportivas com sódio ou combinação de água + fontes de sal.
- Elas ajudam a:
- reduzir risco de hiponatremia,
- melhorar manutenção de volume plasmático,
- facilitar absorção de água e carboidratos no intestino,
- manter desempenho por mais tempo.
Isso não significa que todo mundo precise de bebida esportiva sempre.
Significa que, em contextos específicos, elas são ferramentas úteis e muitas vezes necessárias.
Clima, individualidade e grupos de maior risco
A estratégia de hidratação muda conforme:
- Clima:
- Calor úmido → suor não evapora bem, sensação de calor maior, necessidade de ajuste fino de hidratação.
- Clima frio e seco → perda de água pelos pulmões aumenta, mesmo sem “estar pingando de suor”.
- Faixa etária:
- Crianças: produzem mais calor proporcionalmente, se distraem fácil, muitas vezes não bebem se não forem lembradas.
- Idosos: resposta de sede pode ser mais lenta; uso de diuréticos e comorbidades exigem cuidado redobrado.
- Condições especiais:
- Atletas em jejum religioso,
- Atletas em altitude,
- Pessoas com doenças renais ou cardíacas.
Tudo isso precisa entrar na equação.
Não existe uma “conta mágica” universal que sirva para todos.
Assista: hidratação – fatos, modismos e mitos (vídeo completo)
No vídeo abaixo, eu destrincho esse tema com calma, mostrando:
- O que a ciência realmente apoia na hidratação de atletas e praticantes
- Onde entram os modismos e exageros nas redes sociais
- Como pensar a hidratação de forma individualizada e prática para diferentes esportes e contextos
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