GUIA DEFINITIVO SOBRE OVERTRAINING
Overtraining é um termo muito usado no dia a dia, mas pouco compreendido em profundidade.
Muita gente chama qualquer cansaço pós-treino de “overtraining”, quando, na verdade, a síndrome de overtraining é um quadro complexo, multifatorial e relativamente raro: especialmente quando há bom planejamento de treino, recuperação adequada e monitorização.
Neste texto, vou explicar de forma objetiva:
- A diferença entre fadiga normal, overreaching e síndrome de overtraining
- Por que o overtraining é muito mais do que “treinar demais”
- Quais são os principais sinais de alerta fisiológicos, psicológicos e de desempenho
- E como isso se conecta com periodização e controle de carga no esporte
Se você quiser uma explicação ainda mais completa, com exemplos práticos e raciocínio aplicado ao alto rendimento, recomendo fortemente assistir ao vídeo que no final desta matéria, onde aprofundo vários pontos que não cabem em texto.
O que é, de fato, overtraining?
Na literatura científica, usamos “síndrome de overtraining” para descrever um estado de queda de desempenho prolongada, acompanhado de alterações fisiológicas, hormonais, imunológicas e psicológicas, que não se resolve apenas com alguns dias de descanso.
Ou seja, não é:
- “Treinei forte ontem e hoje estou cansado”
- “Fiz uma semana pesada e estou dolorido”
Isso faz parte da fadiga aguda esperada de um processo de treino bem estruturado.
No overtraining, o que vemos é um quadro onde:
- O atleta não consegue recuperar o desempenho anterior mesmo com redução de carga e aumento de recuperação
- Há sinais sistêmicos (sono, humor, imunidade, apetite, motivação) alterados
- O tempo para restabelecer o estado de performance pode ser de semanas a meses
Por isso o overtraining é um problema sério na fisiologia do exercício e na preparação de atletas de alto rendimento.

Overreaching funcional x não funcional x overtraining
Um ponto central é entender essa “escadinha” de estados possíveis:
1. Fadiga normal (resposta aguda ao treino)
- Cansaço, dor muscular, leve queda de performance em sessões muito próximas
- Resolve com descanso adequado, sono, nutrição suficiente
- É parte do processo de adaptação
2. Overreaching funcional (FOR – Functional Overreaching)
- Períodos de sobrecarga planejada: o treinador aumenta a carga (volume/intensidade) acima do habitual por alguns dias ou semanas
- Pode haver queda temporária de desempenho, pior sensação subjetiva de esforço, maior fadiga
- Com um período subsequente de taper/deload/recuperação, há uma supercompensação e melhora de performance
- É uma estratégia intencional dentro da periodização
3. Overreaching não funcional (NFOR – Non-functional Overreaching)
- A carga (ou o estresse total, somando treino + vida) é tão alta e/ou tão mal distribuída que:
- há queda de desempenho
- aparecem sinais mais marcantes de fadiga, irritabilidade, distúrbio de sono etc.
- Não há supercompensação clara após um breve período de descanso
- Pode levar semanas para o atleta voltar ao estado anterior de performance
- Aqui, já estamos no limite entre planejamento ruim e risco de evolução para síndrome de overtraining
4. Síndrome de overtraining (OTS – Overtraining Syndrome)
- Queda de desempenho prolongada
- Presença de vários sinais sistêmicos (hormonais, inflamatórios, imunológicos, psicológicos)
- Recuperação lenta, podendo levar meses, mesmo após redução significativa da carga de treino
- Fisiopatologia multifatorial: não é só “treino demais”, mas interação entre:
- carga de treino
- recuperação inadequada
- estresse psicossocial
- sono de má qualidade
- estado nutricional, entre outros
Na prática, muitos casos que as pessoas chamam de “overtraining” são, na verdade, overreaching não funcional. A síndrome de overtraining verdadeira é menos comum, mas extremamente impactante.

Por que não é só uma questão de “treino demais”?
Reduzir o overtraining à ideia de “treinar muito” é simplista e perigoso.
Do ponto de vista da fisiologia do exercício, o quadro emerge de um desequilíbrio crônico entre:
- Carga total de estresse (treino + competição + vida pessoal + trabalho + estudos)
- Capacidade de recuperação (sono, nutrição, suporte psicológico, estratégias de recuperação, genética)
Alguns pontos importantes:
- Dois atletas podem receber a mesma planilha, mas:
- um está dormindo 8h por noite, com suporte nutricional e psicológico
- outro dorme 5h, trabalha em turnos, está sob alto estresse emocional
→ A resposta ao mesmo estímulo será completamente diferente.
- Aspectos como:
- estresse crônico
- viagens frequentes e fuso horário
- baixa disponibilidade energética (LEA)
- processos infecciosos recorrentes
podem interagir com o treino e favorecer a instalação de um estado de mal-adaptação crônica.
- A linha entre “estimular a adaptação” e “entrar em colapso” é estreita em contexto de alto rendimento.
Por isso, hoje se fala mais em gestão de carga e monitorização contínua do que em treinar sempre “no limite”.
Sinais e sintomas associados ao overtraining
Não existe um marcador único que “feche” diagnóstico de síndrome de overtraining. O que se observa é um conjunto de sinais em diferentes dimensões:
1. Desempenho
- Redução sustentada de performance em testes padronizados (força, potência, VO₂max, tempo de prova etc.)
- Incapacidade de atingir intensidades antes habituais
- Sensação de esforço aumentada para cargas submáximas
2. Sintomas subjetivos
- Fadiga persistente, sensação de “peso” constante
- Queda de motivação para treinar, perda de prazer na modalidade
- Irritabilidade, alterações de humor, ansiedade ou apatia
- Sono não reparador, dificuldade para adormecer ou manter o sono
3. Aspectos fisiológicos e imunológicos (conceitualmente)
- Maior susceptibilidade a infecções (resfriados recorrentes, por exemplo)
- Alterações em marcadores inflamatórios e hormonais (eixo HPA, catecolaminas) descritas em estudos, mas sem um padrão único e facilmente aplicável à rotina
- Modificações na variabilidade da frequência cardíaca, frequência cardíaca em repouso/ao submáximo, entre outros, que podem ser usadas como indicadores indiretos dentro do contexto
4. Treino e lesões
- Aumento na incidência de lesões por sobrecarga
- Dificuldade em completar as sessões planejadas
- Necessidade frequente de ajustar/cortar treinos por exaustão
É justamente pela natureza multifatorial e pouco específica dos sinais que o diagnóstico de overtraining é um desafio e, muitas vezes, feito por exclusão e acompanhamento longitudinal.
Como diferenciar um período pesado de treino de um processo patológico?
Na prática, esse é um dos dilemas centrais de treinadores, fisiologistas, médicos do esporte e de qualquer profissional que trabalha com atletas de alto desempenho.
Alguns pontos que ajudam no raciocínio clínico/esportivo:
- Tempo de recuperação:
- Fadiga e overreaching funcional → melhoram claramente após dias/semana(s) de recuperação planejada.
- Overreaching não funcional e overtraining → o retorno ao desempenho prévio é lento, parcial ou inexistente no curto prazo.
- Comportamento dos sintomas:
- Se o atleta relata piora contínua de humor, sono, motivação, somado a queda de desempenho, é um sinal de alerta maior.
- Quando os sintomas são apenas locais (dor muscular, rigidez) e melhoram com ajustes pontuais, tende a ser mais compatível com fadiga aguda.
- Contexto global:
- A mesma carga de treino em um momento de baixa demanda externa pode ser bem tolerada.
- Em períodos de alta pressão, viagens, problemas pessoais, restrição de sono e alimentação, o risco de mal-adaptação aumenta significativamente.
Esse raciocínio é muito melhor explorado com exemplos práticos, que destrincho com mais detalhes no vídeo abaixo.
Acima está o vídeo em que aprofundo o tema do overtraining, discuto a literatura e trago exemplos da prática com atletas.
Se você trabalha ou pretende trabalhar com esporte de alto rendimento, recomendo assistir com calma: no vídeo comento nuances que nem sempre aparecem em artigos ou livros-texto.
Monitorização de carga e prevenção: foco principal
Mais do que “tratar overtraining”, o grande objetivo na fisiologia do exercício é prevenir que o atleta chegue a esse estado.
Algumas estratégias gerais, que devem sempre ser adaptadas ao contexto:
- Planejamento de carga:
- Estruturar blocos de treino com períodos claros de sobrecarga e recuperação
- Evitar aumentos abruptos de volume ou intensidade sem progressão lógica
- Monitorização subjetiva:
- Uso de escalas simples de fadiga, dor muscular, qualidade de sono, humor e disposição
- Questionários rápidos pré-treino, que o atleta consegue responder em minutos
- Monitorização objetiva:
- Acompanhamento de desempenho em testes repetíveis (força, potência, tempo, carga submáxima)
- Medidas fisiológicas selecionadas conforme a realidade (FC repouso, variabilidade da FC, dados de GPS, etc.)
- Integração multidisciplinar:
- Conversa constante entre treinador, fisiologista, médico, nutricionista e psicólogo
- Atenção especial a momentos críticos da temporada (pré-competição, fases de muitas viagens, retornos de lesão)
Vale reforçar: não existe um único marcador mágico. É a combinação de dados objetivos + percepção do atleta + contexto que ajuda a identificar quando o sistema está saindo da zona de adaptação para uma zona de mal-adaptação.
Overtraining em diferentes esportes e populações
Embora o conceito seja semelhante, a forma como o risco de overtraining se manifesta pode variar entre:
- Esportes de endurance (corrida, ciclismo, triathlon, natação):
- Grande carga de volume, muitas horas semanais de treino
- Risco especial em fases de preparação para provas longas, com alta densidade de estímulos
- Esportes de força e potência (levantamento olímpico, sprint, esportes coletivos):
- Picos de intensidade muito altos, com impacto no sistema neuromuscular
- Periodização mal ajustada pode gerar estados de fadiga crônica que comprometem força/potência
- Praticantes recreacionais:
- Em geral, é mais comum vermos cansaço e overreaching leve do que síndrome de overtraining verdadeira
- Mas combinações de treino excessivo + dieta muito restritiva + estresse profissional podem sim levar a quadros de exaustão importante
Para cada contexto, o desenho da monitorização e da intervenção precisa ser diferente: e é aqui que a atuação de um profissional bem formado faz toda a diferença.
Conclusão
Overtraining não é sinônimo de “treinar forte”, nem de “estar cansado depois de uma semana pesada”.
Ele representa um estado de mal-adaptação crônica, em que o organismo já não consegue responder de forma positiva à carga imposta, resultando em queda prolongada de desempenho e alterações sistêmicas.
Entender a diferença entre fadiga normal, overreaching funcional, overreaching não funcional e síndrome de overtraining é fundamental para qualquer profissional que trabalhe com exercício, esporte e alto rendimento.
Se você quiser levar esse conhecimento para a prática, com exemplos reais de atletas, discussão de periodização e integração com outros marcadores fisiológicos, não deixe de assistir ao vídeo que incluí neste post.
Próximo passo: aprofunde biomarcadores, fadiga e overtraining na prática
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Abraços e nos vemos em breve.
One thought on “OVERTRAINING: O QUE É, COMO RECONHECER E POR QUE É DIFERENTE DE “TREINAR PESADO””